Quinta, 10 de dezembro de 2009
Enviado por: Portal Saiba Já

"Filho, não faça isso". A frase, quando repetida várias vezes, vai invariavelmente aumentando de volume. Se a criança insistir na atividade proibida, a paciência dos pais tende a esgotar e o resultado é um velho conhecido das crianças: o grito. Para evitá-lo, alguns pais podem usar ameaças pesadas - como "Se você fizer isso, a mamãe vai morrer" ou "Eu nunca mais vou ficar feliz" - e o resultado é ainda pior.
Esses artifÃcios dos adultos para serem obedecidos, assim como a humilhação em público, exigências exageradas, castigos ou chantagens, podem parecer inocentes, mas são classificados como sérios tipos de violência. "É o que chamamos de violência psicológica. Um conjunto de atitudes, palavras e ações usadas para envergonhar, punir, castigar, censurar e pressionar a criança de modo constante", afirmou a psicóloga Maria Regina Domingues de Azevedo, professora do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina do ABC.
Isso quer dizer que não são apenas os criticados tapinhas que agridem ou prejudicam os pequenos. Uma matéria recente do jornal americano The New York Times afirmou que a maioria dos pais de hoje jamais bateria em seus filhos. "Nós parabenizamos os bebês por assoarem o nariz e procuramos ao máximo entender os sentimentos deles. Mas, contraditoriamente, essa é uma geração que grita", disse o texto.
Amy McCready, fundadora da Positive Parenting Solutions, que ensina truques de educação aos pais afirmou que trabalha com milhares deles e pode dizer sem dúvida que o grito é o novo tapa. "Eles já entenderam que não é sociavelmente aceito bater nas crianças, mas não tem ideia do que podem fazer. Na ausência de ferramentas que funcionem, eles se sentem frustrados e bravos e levantam a voz, depois se sentem culpados e o ciclo continua", disse a especialista na matéria da publicação americana.
Outras punições
Mas mesmo que o grito seja o mais frequente, as crianças não estão livres de outros tipos de punições aos maus comportamentos que podem ser muito mais prejudiciais do que educativos. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, a violência pode ser passiva, quando ocorre abandono emocional ou negligência dos cuidados afetivos. Ou ativa, quando é expressa de forma verbal em atitudes de ameaça, castigos, crÃticas, rejeição e isolamento.
Entretanto, a punição - seja em forma de castigo ou ameaça - está associada culturalmente como um dever dos responsáveis e, logo, um direito de quem está educando. Muitos pais acreditam que gritar, humilhar, castigar e denegrir está na lista das atribuições de um pai e não há problema nenhum em fazê-lo. A violência psicológica acaba associada como prática educativa aceitável. "É imprescindÃvel ensinar normas, regras, obediência e principalmente limites. No entanto, não se consegue êxito nesta tarefa fazendo uso de qualquer tipo de violência", disse Maria Regina.
Já que a aprendizagem é a imitação de modelos, o pequeno se espelha no adulto, e é diretamente afetado pelas palavras que ouve. Palavras depreciativas podem exercer uma influência negativa e tanto na formação de uma pessoa.
Como isso pode prejudicar
As crianças identificam de forma clara e com muita facilidade quem manda e a quem elas devem obedecer. "Se a autoridade e o poder dos adultos, que poderiam ser exercidos respeitando a integridade fÃsica e mental, forem demonstrados por meio de práticas que prejudicam a criança e o adolescente, isso os fará passar por grande sofrimento emocional que se reflete no convÃvio familiar, social e escolar", afirmou a psicóloga da Faculdade de Medicina do ABC.
As crianças reagem da mesma forma violenta em casa com os irmãos e na escola e aà o ciclo está formado. "São rotuladas como sem educação e não se enquadram no padrão preconizado para as chamadas crianças comportadas."
Além disso, a violência psicológica desencadeia no menor um desmoronamento de valores e verdades estabelecidos, que pode resultar em sérios prejuÃzos e até no comprometimento da auto-estima. "Pode-se observar que as vÃtimas desse tipo de violência, em especial os adolescentes, apresentam tendências ao suicÃdio, fuga, comportamentos de risco, uso de substâncias quÃmicas como drogas, álcool e fumo, além de baixo rendimento escolar e condutas tidas como antissociais e de mau-comportamento."
Se a longo prazo o efeito é desastroso, a curto prazo pode nem chegar a funcionar para o principal objetivo, que é ser obedecido. No caso dos gritos, a reação é diferente de acordo com a idade. Um bebê ou uma criança pequena poderá ficar extremante assustada, enquanto um adolescente acha que os pais estão descontrolados. É aà que os responsáveis perdem a razão na discussão. "Se um pai ou uma mãe grita por qualquer motivo, perde-se o parâmetro de gravidade dos atos. Ao invés de ser tornar um sinal de alerta, acaba banalizado", afirmou Ivete Gianfaldoni Gattás, psiquiatra da infância e adolescência, membro da Upia (Unidade de Psiquiatria da Infância e Adolescência) da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).