Terça, 03 de março de 2009
Enviado por: Saiba Já

Para se compreender o filme "3 Macacos", de Nuri Bilge Ceylan, talvez seja preciso notar uma caracterÃstica da Turquia. O paÃs está dividido entre o Ocidente e Oriente, não só sob ponto de vista geográfico, mas também polÃtico, social e cultural. De certa forma, os personagens desse filme turco refletem essa divisão.
O ponto de partida do filme de Ceylan, que levou o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes do ano passado, é um atropelamento. O polÃtico Servet (Ercan Kesal) mata um estranho enquanto conduzia seu carro por uma estrada escura. Para evitar o risco de que o fato prejudique sua carreira polÃtica à s vésperas de uma eleição, ele suborna seu motorista, Eyüp (Yavuz Bingol), para que ele assuma o acidente e seja preso. Em troca, Servet paga uma soma de dinheiro à sua famÃlia durante a prisão de Eyüp.
Nesse perÃodo, a mulher de Eyüp, Hacer (Hatice Aslan), pede um adiantamento do dinheiro a Servet e então eles iniciam um romance, que será descoberto pelo filho de Eyüp, Ismael (Ahmet Rifat Sungar), em um determinado momento.
Esses são os elementos que Ceylan oferece para construir uma tragédia familiar. Mas há algo além que o desmoronamento moral de uma famÃlia. Talvez valha notar que Eyüp não é apenas um nome turco, mas também é um distrito de Istambul bastante peculiar.
O distrito de Eyüp tem importância histórica aos muçulmanos e, por isso, é conhecido por ser uma região de grande concentração de religiosos. No século 20, tornou-se uma zona industrial e um local de residência da classe trabalhadora. Eyüp, portanto, pode ser um nome que, a grosso modo, pode ser identificado com a religiosidade e a laicidade do mundo moderno industrial.
O personagem Eyüp é um homem dividido entre a moral, representando pelo casamento e pela famÃlia, e o dinheiro, na figura de Servet. Nesse conflito, a maior derrotada será a moral, pois Eyüp deixa-se corromper e sua mulher tem um caso extraconjugal.
De certa forma, Ismael segue o mesmo caminho de derrocada moral. Por isso, ele surge ensangüentado e machucado na mesma noite em que é anunciado a vitória de Erdogan nas eleições turcas. Vale lembrar que o nome de Ismael significa, em árabe, aquele que Deus ouviu. E o que Ismael ouve pela televisão é a vitória de um polÃtico, o atual primeiro ministro-turco, considerado pró-islâmico e tido como um freio para a ocidentalização da Turquia. E por que Ismael estaria machucado exatamente nesta cena? Talvez porque o desejo do jovem seja ter um automóvel, um sÃmbolo do mundo industrial ocidental e moderno.
Com a história dessa famÃlia, Ceylan parece oferecer uma visão da natureza conflituosa da Turquia, dividida entre o Ocidente e o Oriente. De certa forma, trata-se de uma visão pessimista e trágica de um processo histórico. Tudo isso pode ser resumido nos primeiros minutos do filme: uma estrada absolutamente escura cuja única luz vem dos faróis de um automóvel. Poderia ser um alÃvio para quem teme a escuridão, mas aqui é o inÃcio de uma tragédia.