Quinta, 29 de janeiro de 2009
Enviado por: Saiba Já

Após anos e anos de estudo decorando fórmulas que você nunca mais vai usar na vida e interpretando milhares de textos, você acabou de entrar na faculdade. Ou seus pais, finalmente, decidiram que o melhor para você é ir para uma cidade maior, com mais oportunidades de crescer.
Deixar para trás o seu quarto, a comida pronta na geladeira, a cama arrumada, as roupas lavadas e passadas, o amor incondicional dos pais já não é a coisa mais fácil do mundo e encontrar um lugar bem pertinho da escola ou da faculdade também não é lá muito simples! Muitas vezes, a opção que resta é mesmo morar com desconhecidos.
Amanda Marçal, 20 anos, já passou por muito perrengue nessa vida! Quando passou em Relações Internacionais, na PUC, descobriu que precisaria abandonar Uberlândia para viver em Belo Horizonte. Com a cara e com a coragem, saiu procurando moradia nos arredores da faculdade até achar um folheto com o anúncio de um apartamento onde moravam três meninos e a dona do lugar. Era um banheiro para todos, eu tinha nojo de tomar banho. Mas os meninos eram legais e prestativos, foi uma experiência interessante!, conta. Apesar de o contrato exigir seis meses, ela só conseguiu ficar lá durante três semanas. Era muito bizarro! A proprietária dormia no banheiro que havia perto da cozinha, colocava um colchonete e metade ficava para fora. Uma vez, fui tomar água e levei o maior susto com ela deitada! Achei que estivesse desmaiada!
Uma menina morando com três meninos é meio complicado, agora imagine uma menina convivendo com mais dez! Pois é, Priscila Marques, 22 anos, morou no alojamento da Escola Técnica, em Furnas (MG), por quase dois anos. A sorte é que era um casarão antigo com uns dez quartos. No começo eu dormia junto com outra garota, mas depois ela foi morar na casa de outra amiga e fiquei com o quarto só para mim. Mas, à noite, a minha amiga da frente colocava o colchão dela no meu quarto para a gente ficar conversando antes de dormir, lembra.
Com um monte de mulher concentrada no mesmo lugar, motivos para briga não faltavam, principalmente por causa do banheiro. Eram dois banheiros comunitários, com dois chuveiros cada. Às vezes a gente saía para jogar vôlei e já ficava combinado que quem ficasse no alojamento tomaria banho antes de a gente chegar. Mas isso já deu muitas brigas, várias vezes eu cheguei atrasada na aula por causa disso, revela.
Mas quem dera se todo motivo de preocupação fosse esse, pior é quando seus pertences somem dentro da própria casa! Não gosto de mulher histérica e fútil, que grita por motivos tolos e que disputa homem, muito menos de pessoas depressivas e rebeldes sem causa, mas já morei com esse tipo de gente. Banhos muito demorados, pia cheia de louça, peças de roupa espalhadas pela casa e restos de comida na geladeira também me irritam, mas furto de pequenos objetos era de mais! Chave, carregador de câmera, blusa, cartão de memória e cartão de crédito simplesmente sumiram, diz Mariella Coimbra, 20 anos.
Caio Tunice, 20 anos, confessa que foi um felizardo ao escolher morar com outras pessoas. Como não aguentava mais pegar trem de Suzano até São Paulo todos os dias para assistir às aulas de Jornalismo, resolveu reunir três amigos de longa data e um desconhecido, colega de um dos outros dois. Nunca deu uma briga, nenhuma discussão acalorada! A gente se respeita e, por isso, não acha motivo para brigar nem que procure.
Se é muita afinidade ou muito bom senso não se sabe, mas não deu confusão nem quando a luz ficou cortada por doze horas por falta de pagamento, nem quando um deles chegou bêbado e sem chave e achou muito mais conveniente arrombar a porta do que ficar pelo corredor. Fui num show e cheguei às 7h da manhã sem entender nada. Quando voltei da aula, a polícia estava lá! Não sou pai nem mãe de ninguém, todo mundo parecia bem envergonhado quando se deu conta do que fez. Se eu começasse um sermão, eu seria ignorado! Já bastava a porta estourada para lembrar o que tinha acontecido. Tudo o que eu disse foi: "Vocês sabem que eu não vou pagar nenhum estrago, certo?.
A maioria das pessoas que passou a morar em república tem a frase Aprendi a ser mais tolerante na ponta da língua, afinal, apesar de as pessoas serem muito diferentes umas das outras, não tem como viver aos trancos e barrancos o tempo todo! Mariella se sente muito mais feliz em morar num apartamento limpo, organizado e arejado, com pessoas que têm interesses em comum. Amanda agora mora só com duas meninas e uma veio diretamente de São Tomé e Príncipe, da África, para estudar enfermagem. Eu virei uma pessoa menos preconceituosa, porque quando você pensa em uma pessoa totalmente diferente de você, de outro país, de outro continente e com outros costumes, de imediato, você acha que não vai dar certo. Eu tentei me aproximar, aos poucos ela ficou mais à vontade, mas os africanos da faculdade não interagem muito com os brasileiros, admite.
Apesar de todas as dificuldades, morar com outras pessoas é extremamente importante para amadurecer, saber dividir e ser menos individualista. Como eu sou filha única, era acostumada a ter tudo para mim, nunca precisei dividir nada com ninguém. Agora aprendi a dividir sentimentos, momentos, comida, objetos e roupas, declara Mariella. Três das dez meninas que moravam com Priscila são suas amigas até hoje. É ótimo conhecer pessoas e lugares diferentes, além de fazer amizades verdadeiras. Vi que o mundo não girava ao meu redor e que eu precisava aceitar as pessoas para que a minha vida fosse mais fácil.