Terça, 18 de novembro de 2008
Enviado por: Jorge Roberto Innocencio da Costa

Nos tempos de faculdade as coisas não foram fáceis, mas se tivessem sido não teriam tido tanto sabor.
Lembro-me que quando entrei na faculdade era o mais jovem da turma, isso por si só já me rendeu uma série de tropeços. Era o único da turma que não tinha um carro, até que então decidi comprar um. Bem, comprar um carro não é tarefa fácil para quem na época ganhava um salário de três dÃgitos, comecei a procurar o tal veÃculo, mas não achava nada que cabia no meu orçamento.
O melhor que encontrei foi um que não tinha assoalho, no lugar tinha uma tábua. Pensei comigo: deve ter sido do Fred Flistone. Resolvi deixar para lá, vai que um dia a marginal alagasse estaria perdido.
Até que num contato telefônico, com uma garagem em Araraquara, encontrei uma vendedora muito simpática. Ela queria me vender um carro importado. Tenho um carro que é a sua cara – disse-me. Convidando para uma vista em sua agência.
Lá fui eu, todo empolgado com a oportunidade da aquisição. Ao chegar lá, depois de dois ônibus, entrei em uma vila que nunca tinha ouvido falar.
Realmente o carro era importado, um Lada, tava meio surrado, mas já viu estudante se importar com isso. No pára-brisa havia um cartaz escrito: O russo que vai levar o jovem brasileiro para o mau caminho.
Queria me livrar logo do meu problema de andar a pé. Não sei porque, mas senti o mesmo sentimento da moça da loja com relação ao carro. No final da história ela acabou abatendo mais de mil reais do preço do importado; pela primeira vez me senti realizado.
Ao entrar no carro tive a sensação de quem entrava num veÃculo de caça. Pensei comigo: “Mulheril não vai mais ficar indócil”. Até que o carro foi bem na primeira semana, no entanto ao voltar de Araraquara, notei que o negócio começou a fazer um barulho estranho, parecia que ia decolar; encostei o veÃculo de caça no mecânico, na época meu conhecimento sobre o assunto era tanto que se o cara dissesse que tinha um reator nuclear dentro daquela tampa, perguntaria a ele se o negócio tava queimado.
Era um tal de rolamento de roda, pior não era um eram quatro, a cada semana eu era apresentado a uma nova peça, era mangueira que ressecava, pneu que desalinhava e por ai adiante; no fim da história, carnê da oficina tava maior que o do financiamento.
Nesse momento consegui entender duas coisas, porque a moça me deu quase mil reais de desconto e porque ela disse que tinha um carro com a minha cara. Cara de tonto!